terça-feira, 21 de março de 2017

Líderes do Brasil promovem Austeridade (mas não para eles próprios)




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SÃO PAULO - A economia doentia do Brasil está sangrando milhares de empregos por dia, os estados estão lutando para pagar policiais e professores, e o dinheiro para refeições subsidiadas é tão curto que um legislador sugeriu que os pobres poderiam "comer dia sim dia não."

Ainda assim, nem todo mundo está sofrendo. Funcionários públicos no ramo judiciário estão desfrutando de um aumento de 41%. Legisladores aqui em São Paulo, a maior cidade do Brasil, votaram para aumentar seus próprios salários em mais de 26%. E o Congresso, que está se preparando para cortar benefícios de pensão em todo o país, está agora permitindo que seus membros se aposentem com pensões vitalícias depois de apenas dois anos no cargo.

O Brasil está lutando para sair de sua pior crise econômica em décadas, e o presidente Michel Temer diz que o país precisa reduzir os gastos públicos para fazê-lo.

No entanto, para piorar seus péssimos índices de aprovação, Temer ofereceu um generoso banquete financiado pelos contribuintes para persuadir os membros do Congresso a apoiarem seus cortes no orçamento, com 300 convidados comendo camarão e filé mignon.

 Fora de tais círculos rarefeitos, as medidas de austeridade de Temer estão inflamando um debate feroz sobre como os brasileiros mais ricos e poderosos estão protegendo suas riquezas e privilégios em um momento em que grande parte do país está passando por um declínio econômico assustador.

"Este governo fala de austeridade para todos, mas, claro, pressiona os custos das pessoas mais vulneráveis da sociedade", disse Giovana Santos Pereira, 25 anos, professora. "Seria ridículo se não fosse trágico."

Grande parte da revolta gira em torno da peça central que é o ímpeto de austeridade do Sr. Temer: seu sucesso em persuadir o Congresso escandaloso para impor um limite de gastos federais para os próximos 20 anos.

O Sr. Temer, que subiu ao poder no ano passado depois de apoiar o impeachment de sua antecessora, Dilma Rousseff, diz que estabelecer um limite, que limitaria o crescimento das despesas à taxa de inflação, é necessário para reduzir os déficits orçamentários.

Os investidores têm aplaudido a medida como um ponto de viragem para a maior economia da América Latina. Mas os críticos estão atacando o limite de gastos, dizendo que isso poderia prejudicar os pobres nas próximas décadas, especialmente em áreas como a educação. Philip Alston, relator especial da ONU para a pobreza extrema e os direitos humanos, disse que o limite de gastos colocou o Brasil "em uma categoria socialmente retrógrada".

O debate é ainda mais cáustico porque o governo de Temer está resistindo aos chamados para aumentar os impostos sobre os brasileiros ricos, que ainda gozam do que alguns economistas descrevem como um dos sistemas tributários mais generosos para os ricos entre as principais economias.

Por exemplo, os brasileiros continuam isentos do pagamento de quaisquer impostos sobre os dividendos das participações em ações e podem facilmente usar brechas para reduzir significativamente os impostos sobre outras fontes de renda.

Economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do governo disseram em um estudo de 2016 que um imposto de 15% sobre os dividendos poderia gerar quase US $ 17 bilhões em receita por ano, mas essas propostas não conseguiram ganhar força em um governo que mudou para a direita.

"O sistema é projetado para perpetuar a desigualdade, e Temer está dobrando para baixo as apostas de que o Brasil precisa da austeridade em estilo grego", disse Pedro Paulo Zahluth Bastos, economista da Universidade de Campinas, traçando paralelos entre a desaceleração multianual do Brasil e a aparentemente interminável crise econômica.

O Sr. Temer não foi um presidente popular, e suas avaliações da aprovação estão em apenas 10%. Mas seus partidários ressaltam que sua antecessora esquerdista, Dilma Rousseff, buscou suas próprias medidas de austeridade antes de sua expulsão no ano passado, e que seu governo prometeu manter alguns programas de combate à pobreza amplamente difundidos por seu partido há anos.

O governo do Sr. Temer diz que está a reverter as formas de gastos livres dos governos anteriores. A economia brasileira encolheu cerca de 4% em 2016, quando sua classe política foi consumida pelas lutas internas sobre o impeachment. Mas no mês passado, o ministro das Finanças, Henrique Meirelles, afirmou que "a recessão terminou".

Alguns sinais promissores de uma recuperação podem estar surgindo. O investimento estrangeiro aumentou e, após um mau desempenho, o mercado de ações do Brasil foi um dos melhores do mundo em 2016, criando uma fortuna para os brasileiros relativamente prósperos que investiram em ações. Temer é especialmente otimista, prevendo que a economia vai crescer 3% no próximo ano.

Mas as condições nas ruas das cidades brasileiras contam uma história diferente, refletindo complexos desafios estruturais, tais como milhões de brasileiros caindo na pobreza.

Os estados estão enfrentando greves paralisantes de funcionários públicos reivindicando salários não pagos ou inadequados. No Estado do Espírito Santo, no sudeste do Brasil, uma greve policial no mês passado produziu uma semana anárquica, marcada por pilhagem e um aumento de homicídios.

O Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos de agosto, mostra as complexas questões enfrentadas pelos estados brasileiros. Em esforços desesperados para reduzir o déficit, as autoridades no Rio estão fechando restaurantes que fornecem refeições subsidiadas aos pobres, aumentando impostos sobre o serviço de eletricidade residencial e eliminando programas de bem-estar para os moradores mais pobres do estado.

No entanto, o governador do Rio, como seus colegas de outros estados brasileiros, desfruta do uso de um jato particular para passeios por todo o país. E os juízes do Rio, já tão bem pagos, avançavam com planos de gastar milhões de dólares para contratar novos funcionários para suas câmaras - até que o público soubesse do plano. A indignação resultante forçou os juízes a arquivar a ideia.

Ao mesmo tempo, o Estado está tendo dificuldade em encontrar dinheiro para pagar por comida para os pobres. O custo - cerca de 65 centavos de dólar por refeição - forçou o Estado ao ponto de um legislador estadual, Pedro Fernandes, sugerir que se faça refeições "dia sim dia não".

"Eu não sei se o que estou dizendo é absurdo, mas é algo para refletir", disse ele.

A capacidade de funcionários eleitos e funcionários públicos da elite para garantir o que os brasileiros chamam de "super-salários" e desproporcionar os benefícios para si mesmos tem sido uma característica contenciosa do sistema político do país.

Mas, enquanto os brasileiros se preocupam com a questão em um momento de aperto nacional, alguns funcionários dizem que têm direito a tratamento especial. Os juízes brasileiros, que podem facilmente ganhar cerca de US$ 200.000,00 por ano, têm sido especialmente francos ao exigir aumentos em um país onde cerca de metade da população sobrevive com um salário mínimo de cerca de US$ 4.000 por ano.

"Não há nenhuma vergonha nisto", disse recentemente Ricardo Lewandowski, um juiz da Suprema Corte, em uma conferência para juízes sob aplausos. "As taxas de manutenção de edifícios sobem, os impostos imobiliários sobem, a gasolina sobe, o alimento sobe e o salário do juiz não pode subir".

Como muitos brasileiros pobres e de classe média absorvem o peso das políticas de austeridade, a desaceleração econômica prolongada e uma série vertiginosa de escândalos de enxerto envolvendo os líderes políticos da nação estão alimentando o sentimento anti-establishment antes das eleições presidenciais em 2018, pavimentando o caminho para figuras fora do mainstream a ganhar impulso.

Alertar alguns políticos, Jair Bolsonaro, um congressista ultranacionalista que agride imigrantes e defende a tortura de narcotraficantes, está pontuando bem à frente de contendores tradicionais como Aécio Neves, senador do Partido Social Democrata Brasileiro.

De acordo com uma pesquisa feita no mês passado pela MDA, uma empresa brasileira de pesquisas, apenas 1% dos entrevistados disseram que votariam pelo Sr. Temer, refletindo sua péssima reputação nacional. Pode nem mesmo importar, já que a convicção de Temer por violar os limites das finanças de campanha pode torná-lo inelegível. Sua popularidade sofreu outro golpe nos últimos dias depois que seu governo gastou milhares de dólares para melhorar a luxuosa residência do presidente, apenas para que Temer mudasse sua família para outro palácio do governo na capital, Brasília.

A pesquisa foi realizada de 8 a 11 de fevereiro através de entrevistas com 2.002 pessoas, com uma margem de erro de amostragem ou mais ou menos 2.2 pontos percentuais. Também mostrou um ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, como uma potencial liderança.

Mas Lula, um esquerdista que condena as medidas de austeridade do Sr. Temer, também pode se ver impossibilitado de concorrer se for condenado por acusações de corrupção em conexão com as empresas de construção que lucraram com os contratos públicos.

Dada a paisagem política volátil e a economia fraca, um sentimento de desespero aflige muitos brasileiros.

Ana Cristina Silva, de 49 anos, perdeu o emprego em dezembro em uma empresa da cidade de Porto Alegre, no sul do país, que monta mobiliário.

"Eles só pensam em si mesmos", disse ela sobre o governo do Sr. Temer, expressando indignação com os aumentos de salário concedidos a alguns funcionários públicos, enquanto grande parte do país ainda está cambaleando. - É absurdo. Aqueles que não precisam recebem um aumento."

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