O psicólogo social americano Donn Byrne (1931-2014) definiu o autoritarismo da seguinte forma: "O autoritarismo refere-se a um sistema de atitudes que consiste em urna série de sentimentos antidemocráticos correlatos entre si. Estas atitudes tendem a agrupar-se em conglomerados ideológicos, que constituem um aspecto da estrutura da personalidade." 1
Em sua obra Uma Introdução à Personalidade, ele destaca os nove sintomas que definem a personalidade autoritária e sobre os quais já havia uma convergência entre outros estudiosos do tema, tais como o filósofo alemão Theodore Adorno (1903-1969), um dos fundadores da Escola de Frankfurt. 2
Sintetizados por Castro Teixeira e Polo, temos finalmente os nove traços seguintes:
1. Convencionalismo
Rígida adesão ao convencional, ideais de tipo burguês. A hipótese de que "convencionalismo" constitua fator notável na descrição da personalidade autoritária está baseada nas seguintes observações: a inclinação para o fascismo é característica de quem gravita em torno da classe média; por outro lado, os indivíduos não-convencionais são mais inclinados a serem livres de preconceitos. Dificuldades encontradas no correr da pesquisa levaram a determinar que é de caráter autoritário somente o convencionalismo que resulta não de escolha espontânea, mas de pressões externas de tipo social.
2. Submissão acrítica
Atitude remissiva e acrítica nas relações com autoridade moral, idealizada no âmago do próprio grupo. A concepção nazista de poder e de autoridade exige "forte" direção e a dedicação incondicional dos indivíduos ao Estado. Levantou-se a hipótese de uma extensão desta mentalidade a cada tipo de relação que supõe superioridade (pais, velhos, líderes, seres sobrenaturais etc.). Chega-se a afirmar a suposição de que a adesão devotada e acrítica seja a expressão da falta de consistência interior. Voltaremos com freqüência a considerações análogas para esclarecer outros traços característicos de personalidade autoritária.
3. Agressividade autoritária
Facilidade de espreitar, controlar sempre "quem vem lá", e repelir, condenar, punir quem violar as normas convencionais. O fundo de tal orientação parece constituído de considerável carga de hostilidade, que não podendo atirar-se sobreas causas diretas que a produzem, encontram uma saída em outros objetivos, aptos a produzir justificação "razoável", sem perigos de retorções. O grupo minoritário a que, de preferência, são dirigidos tais sentimentos está capacitado a oferecer "boas" razões, ditadas por um mal-entendido senso de moralidade e de patriotismo.
4. Destruição e cinismo
Hostilidade difusa, desprezo por tudo que é humano. Já nos referimos à definição de mundo que Maslow atribui aos autoritários. Percebeu-se neste pessimismo universal a necessidade de descobrir justificativas posteriores à própria hostilidade e aos outros impulsos interiores não-aceitos.
5. Poder e rudeza
Importância exagerada atribuída às dimensões "dominação-submissão", "fraco-forte", "líder-sectário". Identificação com figuras de poder. Acentuação excessiva dos atributos convencionais do ego. Afirmações drásticas relativas aos conceitos de força e rudeza. A origem de tudo isso pode-se ainda observar na falta de força interior, a que se procura suprir apoiando-se em estruturas poderosas. Identificando-se com essas, o fraco sente-se forte (a nação mais forte do mundo, a raça mais pura, a única verdade etc.). Isso explica a natureza de sua ambivalência para com o poder de que as "SS" alemãs foram eloqüentes exemplos, na obediência cega "ao superior" e na tirania desapiedada "para com o inferior".
6. Superstição e estereotipia
A crença mística nos destinos fatais do homem e indivíduo, a propensão para raciocinar conforme esquemas pré-elaborados e categorias rígidas. Nas convicções supersticiosas é fácil encontrar, ainda uma vez, a fuga da responsabilidade não completamente amadurecida, a procura de um cômodo álibi em forças incontroláveis. Cria-se um halo místico ao redor dos líderes nos quais tudo é considerado extraordinário e com tendências ao sobrenatural. Quanto à estereotipia, esta age sobre a tendência humana de iludir a complexidade dos problemas mediante reduções simplistas. Slogans absurdos, mas que tinham o mérito de ser claros, foram em todos os tempos proferidos pelos líderes e autoritários súbitos.
7. Exteriorização
Oposição a tudo quanto é subjetivo, imaginativo, delicado. Fez-se a hipótese de que os autoritários procuram responder aos fatos concretos, tangíveis, claramente experimentáveis, e não ouvir sentimentos, fantasias, especulações e imaginações. É possível que na raiz de tudo isso se encontre o medo da introspecção, determinado pela falta de solidez interna, pela falta do quadro de referência bastante assimilado para oferecer clara e valiosa discriminação.
8. Projeção
Uma das características mais convincentes postuladas por Adorno é a capacidade de "transferir" problemas interiores para o mundo exterior (impulsos, tabus, fraquezas. temores, responsabilidades). Já se encontrou mais de uma vez essa orientação de base ao se descreverem os outros traços. Acrescentemos que ela atinge várias vezes formas mesmo ridículas de juízo na "maré montante" do mal, dos vícios e dos perigos que "mais do que nunca" ameaçam o mundo, principalmente no que interessa aos dois campos "privilegiados": agressividade (crime) e impulsos reprimidos (imoralidade sexual).
9. Sexo
Os autores da F scale acharam que a atitude exageradamente preocupada do autoritário com relação aos atos da sexualidade constitui as características salientes no quadro dos sintomas por eles descrito. A repressão e a ansiedade consequentes são as matrizes prováveis de tais excessos, Como consideraremos mais adiante.
[1] BYRNE, D. An introduction to personality. Englewood Qiffs, Prentice Hall InternationaI, 1966. p. 238.
[2] Op. cit., p. 490-7.
Fonte: DE CASTRO TEIXEIRA, João Bosco; POLO, Antonio. A personalidade autoritária: componentes e gênese psicológica. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, v. 27, n. 4, p. 47-69, 1975.

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